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  • 2011-05-12 | Visão Online

    A "Auto-Fraude"


    "When the game is over, it all goes back in the box", John Ortberg (http://freewillvsdeterminism.blogspot.com/2011/04/and-in-end-it-all-goes-back-in-box.html)

    Por: Pedro Santos Moura, Manager da Novabase

    Ultimamente tenho sabido de estórias no mínimo curiosas relacionadas com questões de dinheiro entre pais e filhos. Se até há pouco tempo o caso mais comum seria o do filho que se quedava tardiamente em casa dos pais, com grande parte da sua subsistência assegurada por estes, as tais estórias que me têm chegado dizem respeito ao inverso: pais, que devido a um acumular de bens (e correspondentes dívidas) ao longo dos anos, suportados até agora pelos mecanismos dos créditos fáceis (crédito para pagar crédito para pagar crédito para pagar...) e chegados ao actual instante de crise económica, se vêm envolvidos num novelo de dívidas com o qual já não podem pagar ou lidar, sendo em muitos casos os filhos que lhes vêm dar a mão. Saber deste fenómeno deu-me que pensar.

    Quando falamos de fraude, pensa-se em algo como

    "apropriação indevida de bens ou vantagens para benefício próprio". Mas subentende-se sempre uma certa noção temporal de Presente, de actualidade. Ora o que agora se começa a ver (por vezes não se vê o que está diante do nariz) é um processo que decorreu ao longo de muito tempo, que sumariamente consistiu na apropriação generalizada de bens ou vantagens com impacto negativo sobretudo no Futuro. O que dizer de dívidas que se contraem sem uma real perspectiva de serem saldadas? O que dizer de fundos e bens desbaratados ao longo de décadas, originalmente destinados à melhoria estrutural do tecido social e económico de todo um país, para benefício indevido de uns poucos? O que dizer de dinheiro que se empresta sem um valor real associado, dinheiro virtual que passa a ser real quando alguém assume uma dívida relativa ao mesmo?

  • O caso dos pais suportados pelos filhos não é por si um choque. O dever de solidariedade intra-geracional assenta em princípios éticos básicos de qualquer sociedade. O caso das dívidas dos pais suportadas pelos filhos é, esse sim, chocante. No final quem paga não é quem usou ou ganhou posse. A Motivação é aquela que até agora parece ter sido inquestionável por estes lados: ter mais; não necessariamente melhor, mas mais. A Oportunidade, óbvia: facilidade de acesso a crédito para tudo e mais alguma coisa. A Racionalização do acto, vem do simples facto de 'toda a gente fazer o mesmo'. Parece fraude? Cheira a fraude? Sabe a fraude? Mas não é bem fraude, mesmo que encaixe que nem luva na definição. Isto porque um comportamento social e culturalmente generalizado e vindicado não é considerado um acto ilícito ou marginal. Talvez se devesse abrir um novo campo de estudo: a Auto-

    fraude, a fraude sobre nós mesmos, individual e socialmente, que estudasse estas tipologias algo 'masoquistas' de utilização dos recursos disponíveis. Fica a sugestão.

    Sinto-me defraudado, enquanto pessoa e cidadão. Daí uma certa perspectiva biliar no que escrevo acima. Custa-me perceber que as minhas filhas vão provavelmente viver numa sociedade mais desigual que eu. Custa-me sentir que há uma certa ilusão colectiva sobre a realidade, em que todos tentam achar 'os culpados' mas ninguém olha realmente para si, para o que se passou e passa a partir de uma perspectiva crítica, objectiva, e que pudesse ajudar a refundar alguns tiques culturais que melhorassem a perspectiva colectiva e individual do futuro.

    A causa da crise actual é, em meu entender, sobretudo uma grande Auto-fraude colectiva, assente na desresponsabilização e corrupção generalizadas. Quisemos simplesmente ter mais (não ser mais ou ter melhor), não interessando os meios ou as consequências que daí poderiam advir. Acreditou-se piamente no wishful thinking de que 'isto é sempre a crescer'. E não é. Estoirámos recursos económicos, pessoais, espirituais, culturais e naturais em busca de algo que não se sabe sequer bem o que é, sem peso, conta ou medida. Acreditámos que os recursos são infinitos, assentámos a nossa vida numa cultura de desperdício, esquecemo-nos das pessoas, de nós próprios. Defraudamos as possibilidades de uma vida sustentada e sustentável.

    Urge aprender com os erros. E ter consciência. A culpa de 
  • tudo isto não é do 'sistema', ou de uma 'conspiração', ou do 'mercado', ou do 'governo'. É de todos. Andámos durante anos e anos a cometer 'Auto-fraude'. A grande mudança não vem de fora ou de cima: vem da mudança de cada um, na sua vida, no seu trabalho, em si próprio.

    Costumo dizer quando se fala de combate a fraude (e outros temas): podemos ter o melhor dos sistemas, o mais perfeito, o mais refinado; caso a cultura seja medíocre, o sistema vai falhar. Já um sistema com imperfeições, conjugado com uma boa cultura generalizada é garantia quase certa de sucesso.

    Porque a questão fulcral de tudo isto não é só 'pagar a dívida', como alguém que foi julgado e condenado a pagar uma multa. As multas pagam-se e muitas vezes o que daí

    resulta é somente um inimigo, alguém mais que culpar. O essencial é reperspectivar os nossos valores, a nossa cultura pessoal e colectiva, os nossos objectivos e, sobretudo, os nossos actos. Sobretudo, pararmos com a 'Auto-fraude'.

RODAPÉ