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  • 2011-12-29 | Diário Económico

    Portugal e o mundo


    Para todos os portugueses 2011 é como um indesejável despertador que nos acorda para uma dura realidade. Uma realidade cada vez mais assente no capitalismo universal, onde os chamados mercados - i.e. os credores - impõem as regras do jogo. E onde a globalização trará prosperidade a alguns povos mas, também, empobrecimento a outros. 


    Por: Luís Paulo Salvado, CEO da Novabase

    O mundo não tem razões para se queixar, pois a economia global continua a crescer e a retirar, todos os anos, dezenas de milhões de pessoas da pobreza, criando uma classe média cada vez mais numerosa e sedenta de democracia e liberdade política.

     

    Boas notícias para o planeta, é certo, mas não tanto para nós. Esta realidade para a qual nos despertaram está a desfazer, aos poucos, alguns equívocos que se tinham instalado na cabeça de muitos dos nossos políticos, empresários, líderes de opinião e, inevitavelmente, do cidadão comum. Um deles era acreditar que um país poderia viver muitos anos acima das suas possibilidades. Outro, é que seria possível fazer investimentos - não está em causa o seu mérito - sem se saber qual a capacidade de os pagarmos.

    Ou que a aposta (inconsciente?) numa economia de bens não transaccionáveis não iria desmantelar progressivamente o nosso tecido produtivo, perpetuando assim um desequilíbrio de décadas na nossabalança externa. Ou ainda que o atraso das reformas estruturais, há muito diagnosticadas e anunciadas, não iria comprometer a competitividade do país como um todo.

     

    O mais irónico é que foi esta mesma União Europeia, que agora faz de conta que não tem nada a ver com os nossos problemas, que nos motivou para o desinvestimento que fizemos na agricultura, pescas e até na indústria. E certo que nos pagaram para isso - com milhares de milhões em subsídios e fundos estruturais - e também é certo que, em muitos casos, não soubemos aproveitar devidamente essas contrapartidas.

  • Mas os resultados destas políticas de Bruxelas estão à vista de todos: nós perdemos e alguém ganhou. E os principais suspeitos são os que têm hoje 'superavits' nas suas balanças comerciais, obtidos não só por mérito próprio mas também por conquista de mercado nos países do euro, incluindo os do sul da Europa, entre os quais nos incluímos...

     

    E é desta forma que hoje nos vemos novamente abandonados à nossa sorte. Em boa verdade sempre o estivemos, mas, nos últimos anos, tinha-se criado uma ilusão contrária. E, de repente, vemo-nos confrontados com a necessidade urgente de um resgate internacional. Ajuda esta que limita em muito a nossa margem de manobra, sobretudo na velocidade com que agora temos que nos ajustar à tal dura realidade.

    Tudo isto vai ser muito doloroso e penoso, sobretudo para aqueles que já pouco tinham, mas não se vislumbram alternativas realmente credíveis. É por isso que é tão importante usarmos as variáveis que (ainda) controlamos para não cairmos novamente nos mesmos erros do passado.

     

    Começa por sabermos destrinçar muito bem o que queremos da responsabilidade pública vs. iniciativa privada. Ao Estado e à governação devemos exigir que, para além da gestão equilibrada das contas públicas, invista o necessário para o florescimento duma economia baseada na competição, no mérito e na livre iniciativa. Aos empresários e trabalhadores deve exigirse que usem as vantagens competitivas do país - que também as há - para podermos ter empresas mais produtivas e com propostas

    de valor ganhadoras aqui e nos vários cantos do mundo.

    Para que isto aconteça temos que fazer enormes mudanças. Desde logo, a necessidade de uma reforma profunda na Administração Pública e no Estado, exigindo uma maior selectividade de actuação e apoios, incluindo sociais. Ainda mais importante nessa reforma é não deixar de investir e apoiar o que é crucial para o nosso futuro colectivo, o que passa por criar as tais condições para o desenvolvimento de uma economia baseada na competição e preparada para a globalização. A qualificação e a educação dos portugueses é uma das áreas onde claramente temos que saber investir. Assim como na investigação e na inovação. As empresas estão mais despertas para estas prioridades do que nunca. A retracção da procura em Portugal está a forçar muitas empresas nacionais a, finalmente, olharem prioritariamente

  • para o exterior. Para muitas é já uma questão de sobrevivência e elas sabem que só terão sucesso com ofertas muito diferenciadas, assentes em mão-de-obra altamente qualificada.

     

    Que os próximos anos vão ver muito difíceis, já sabemos. Mas, como noutros momentos ao longo da nossa história, sei que vamos ultrapassar esta situação. Os portugueses sempre deram grandes provas de resistência e adaptabilidade. Somos um povo que sabe sofrer e, provavelmente, iremos mesmo empobrecer durante algum tempo. Mas não é disto que tenho mais receio. O que mais temo é que não saibamos transformar esta dificuldade numa oportunidade e que paguemos esta pesada factura sem o verdadeiro retorno.

    O que me preocupa é a possibilidade de não conseguirmos lançar os alicerces necessários para novamente podermos vir a prosperar como país. 

     

    Para reduzir esse risco temos que deitar mão a tudo o que estiver ao nosso alcance, sobretudo das muitas coisas boas que também temos e onde conseguimos progredir nos últimos anos. E o caso das nossas infra-estruturas e serviços, que estão ao nível do que melhor existe no mundo, como, por exemplo, os serviços financeiros e as telecomunicações. Ou os progressos que temos tido na educação, sobretudo no ensino superior, onde a qualidade dos nossos licenciados, pós-graduados e investigadores é amplamente reconhecida e uma mais-valia para o país. Já para não citar os nossos activos mais tradicionais como o

    clima "ameno e solarengo" e a fantástica gastronomia que posicionam Portugal como um dos 30 países com mais 'soft power' segundo um recente estudo do Institute for Government britânico. Mas, a melhor vantagem que temos, muitas vezes desaproveitada, somos nós próprios. É no nosso ADN enquanto povo que pode residir o nosso maior trunfo. A nossa enorme adaptabilidade, o nosso multi-culturalismo e a nossa capacidade de nos motivarmos na adversidade. Vejam-se as histórias dos apuramentos da selecção de futebol para os campeonatos europeu e mundiais... São factores que podem fazer a diferença num mundo cada vez mais mutante, diverso e exigente. E, graças a estas características, mais uma vez vamos "desenrascarnos" neste momento de aperto.  Mas desenrascarmo-nos é muito diferente de construirmos

  • o futuro que merecemos e que as gerações vindouras exigem. Não lhes queremos passar um país falido, sem esperança e sem caminho. Queremos passar-lhes um país que já não é mais uma periferia da Europa, mas uma região no centro de um novo mundo. Desta vez podemos fazer diferente. Só depende de nós.

     

     

     

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