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  • 2011-10-01 | Executive Digest

    Depois de Jobs


    Luís Paulo Salvado, presidente da Novabase, deixa-nos um testemunho lúcido sobre Steve Jobs.

    Um pouco por todo o mundo, à porta das lojas da Apple, vêem-se velas, flores e mensagens de despedida. Convenhamos que não é um comportamento nada habitual em clientes, perante a partida de um CEO de uma grande empresa. Mas estas pessoas não se sentem clientes, sentem-se parte de um grupo, de uma comunidade criada e liderada por Steve Jobs. 

    Graças a Jobs, milhões de pessoas passaram a amar inúmeros gadjets electrónicos, outrora impessoais, sentindo que estes lhes tinham mudado a sua vida, a sua forma de comunicar, trabalhar, ouvir música, ver filmes e notícias, ler livros e até de se divertirem. Nunca antes ninguém tinha conseguido mudar tantas áreas de negócio diferentes. Sempre com a mesma fórmula: partir de uma ideia simples (mas poderosa) e concretizá-la através de tecnologia

    sofisticada, elegantemente empacotada em produtos que são hoje verdadeiros ícones do design e da moda. Jobs não olhava para a tecnologia com olhos de engenheiro, mas com a perspectiva, o olhar dos utilizadores.

    Mas também não lhes perguntava o que queriam pois dizia que não sabiam. Os seus produtos eram baseados no seu instinto, na sua capacidade de "ligar as pontas soltas", como dizia. Ganhou esta faculdade através de um espírito inquisitivo e curioso que o levou a ter vivências muito diversificadas (converteu-se ao Budismo, experimentou e gabou os alucinogénios, etc). Este ecletismo deu-lhe uma enorme capacidade de antecipar tendências. Contou-me Tom Kelley, director geral e fundador da IDEO, que quando trabalhava com Jobs ficava espantado com a forma estonteante e sem hesitações como ele validava os

  • protótipos numa sequência alucinante de "sins, nãos, aproveita-se isto mas aquilo não". Quando lhe perguntei o que havia de especial no sucesso da Apple, qual o segredo para criar outra empresa assim, ele respondeu: "contratar o Steve Jobs, ele é o único capaz de o fazer". Mas Jobs não teve só sucesso. Teve algo ainda mais importante que isso. Teve também muitos insucessos. E aprendeu sempre com eles. Em 1993, o Apple Newton foi um precursor dos PDAs, e do que é hoje o iPhone. Já tinha agenda, e-mail, fax, contactos, touchscreen, mas também tinha um preço de 1.000 dólares, era grande, pesado, e lento. O primeiro Macintosh portátil em 1989, com mais de 7 quilos, custava 6500 dólares e foi um desastre comercial. Foi o percursor do MacBook Air, o portátil mais fino do mercado. Até a iCloud teve uma incarnação falhada, chamada MobileMe. 

    Lembro-me bem de um desses falhanços. Chamava-se LISA e foi o precursor do Macintosh, Estávamos em 1983 o foi primeiro PC a ter um rato e uma interface gráfica. Na altura eu tinha um micro computador (um ZX81 com 1k de memória). Fiquei tão fascinado com a elegância do LISA que pedi uns catálogos pelo correio apenas para o admirar "mais de perto" (custava uma fortuna e eu era apenas um estudante do secundário). Curiosamente, cerca de um ano depois, quando entrei na universidade e iniciei um estágio no INESC, tive uma das maiores surpresas da minha vida: o trabalho era com um Macintosh, o sucessor do LISA! Foi aí que começou a minha admiração pela obra do Jobs pois a experiência de trabalho não se comparava a nada do que tinha feito até então. Jobs era também conhecido pelo enorme perfeccionismo e pela sua obsessão doentia pelos detalhes. Conta-se que aterrorizava as suas equipas e que

    existia mesmo um "Bad" Steve que não hesitava em despedir colaboradores no elevador quando não gostava das respostas às suas perguntas. O episódio em que atirou um protótipo do iPod para dentro de um aquário só para provar aos seus engenheiros que se saíssem bolhas era porque eles ainda o poderiam fazer mais pequeno é também ilustrativo. E, de facto, as bolhas saíram... Mais recentemente conta-se que, num fim-de-semana em vésperas de lançamento do iPhone, pôs os nervos em franja a meia-Apple porque não gostava do amarelo do "e" no logo da Google que aparecia no ecrã.

    Há quem diga que foi este temperamento que levou à sua saída da Apple em 1985. Ser despedido da empresa que fundou e ainda por cima por alguém que tinha contratado (John Sculley, ex-presidente da Pepsi e que foi contratado

  • por Jobs dizendo-lhe "você quer passar o resto da sua vida a vender água açucarada ou quer vir para uma empresa que vai mudar o mundo?") poderia ter sido o fim da sua carreira, mas segundo Jobs foi "a melhor coisa que me aconteceu na vida", como testemunharia mais tarde na cerimónia de graduação de Stanford em 2005, o melhor discurso que lhe conheço. Fora da Apple começa uma nova vida. Entre vários projectos, cria duas novas empresas: a Pixar que revoluciona o cinema de animação e a NeXT que viria a ser comprada em 1996 pela Apple. Esta aquisição leva-o a regressar à Apple onde começa novamente a ganhar influência. Apesar do seu temperamento difícil sempre conseguiu atrair e motivar o melhor talento para trabalhar consigo. Rapidamente descobre um designer frustrado chamado Jonathan Ive e aposta num produto a que ninguém estava a dar importância. Nasceu o iMac. 

    A dupla Jobs/Ive não mais parou: seguiu-se o iPod, iPhone e o iPad. O que levou a Apple a ser a empresa mais valiosa do mundo, não foram apenas estes produtos. Foi sobretudo o ecossistema inovador que arquitectou e que inclui a loja iTunes e, mais recentemente, a plataforma iCloud, onde todos estes dispositivos coexistem elegantemente. Cada novo equipamento traz mais um segmento de clientes para o ecossistema, num círculo genial e virtuoso. Isto marcou o início da era pós-PC, da qual Jobs foi o principal arquitecto e obreiro. Foi este homem que nos disse para vivermos as nossas vidas, não as vidas que alguém nos destinou. E foi o que ele fez. Inspirou-nos a todos e a mim particularmente, sobretudo no que toca ao papel que a tecnologia deve ter. Deve ser sempre vista como um instrumento ao serviço das pessoas. Deve servir para tornar a nossa vida mais simples e feliz. Jobs mostrou-nos o caminho. Nós temos a

    responsabilidade de o percorrer. Eu estou a fazê-lo.

     
     

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