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  • 2011-05-22 | Expresso

    "Nas tecnologias temos de ser conservadores"


    No momento em que completa dois anos à frente da Novabase, Luís Paulo Salvado está a imprimir um novo rumo à maior tecnológica portuguesa: para compensar a quebra do mercado doméstico, aposta forte na internacionalização.

    Apesar de estar a fintar a crise — apresentou em 2010 os melhores resultados da sua história — a Novabase já está a sofrer danos colaterais da má reputação de Portugal. "Alguns fundos internacionais deixaram de ser nossos acionistas, por terem deixado de investir em empresas que tenham mais de 40% do negócio em Portugal e Espanha", revela o presidente da Novabase. 

    - Na última assembleia geral houve acionistas, nomeadamente Miguel Pais do Amaral, que exigiram maior distribuição de dividendos através de uma operação harmónio (redução e posterior aumento de capital). Como interpreta esta posição?

    - Todas as propostas do conselho de administração foram aprovadas com clara maioria na última assembleia geral. A

    política de distribuição de dividendos foi estabelecida numa proporção que nos parece adequada. Face aos desafios de hoje — internacionalização e riscos da economia — consideramos que a estrutura de capitais é a adequada. A solidez financeira é muito importante, até para ganhar negócios junto dos clientes. Temos que nos afirmar como empresa resistente que vai cá estar daqui a três anos. Comparámos a Novabase com as 50 maiores tecnológicas cotadas na Europa e nos EUA e constatámos que a nossa estrutura de capitais é, em média, mais conservadora. No princípio do ano, as reservas da Novabase eram uma vez o EBITDA (lucros antes de impostos), enquanto a média dessas empresas era de 1,3.

    - Porque são as tecnológicas conservadoras?

  • - Porque estão muito sujeitas aos ciclos económicos. Passam por muitos altos e baixos, consoante haja crescimento ou recessão. Isto implica ter alguma capacidade financeira para superar esses momentos. As que não conseguem acabam por ser compradas por concorrentes ou entrar em insolvência.

    - Também houve contestação por parte dos mesmos acionistas às remunerações da equipa de gestão...

    - O modelo foi aprovado em assembleia geral há alguns anos. Isto não quer dizer que todos os acionistas tenham de estar de acordo. A questão de fundo é que competimos com as melhores empresas do mundo e que temos que ser muito competitivos na atração e retenção de talento.

    - A consolidação entre as tecnológicas portuguesas é um tema recorrente. A Novabase está interessada em liderar o processo?

    - Não é um tema central para nós. A nossa estratégia de crescimento não passa pela consolidação em Portugal, porque a nossa prioridade é crescer a nível internacional. No passado fizemos aquisições com alguma dimensão e estamos sempre disponíveis para encarar negócios em que exista complementaridade de oferta ou um perfil semelhante ao nosso. Ultimamente apenas fizemos pequenas aquisições em novos sectores, como a energia, transportes e aeroespacial. De resto, o sector em Portugal não está mais desagregado do que a média dos outros países europeus. Temos é atores mais pequenos.

    - O crescimento internacional será mais orgânico ou passa por aquisições?

    - Estamos abertos às duas opções. Temos vindo a reforçar as estruturas fora de Portugal através da expatriação de recursos humanos. E podemos fazer aquisições no estrangeiro se surgir uma empresa que tenha interesse estratégico e um preço adequado.

    - Como está a reagir o mercado português de tecnologias de informação (Tl) com o resgate internacional?

    - Está a contrair-se, o que é normal tendo em conta a crise. A Novabase tem resistido à pressão das margens. Temos investido muito em investigação e desenvolvimento, na diferenciação das nossas ofertas e na verticalização. Mas,

  • com o agudizar da crise as nuvens negras adensaram-se e muitos clientes adiaram investimentos. Os nossos números do primeiro trimestre refletem isso, embora estejam em linha com o que tínhamos antecipado. A nota positiva é que tivemos um crescimento internacional de 115% (face a igual período de 2010), muito acima do que estávamos à espera. Isto faz com que o negócio além-fronteiras já seja de 22%, quando há um ano era 10% (a média de 2010 foi 15%). Este movimento está a ser feito de forma sustentada porque implica mudanças. Apesar de 2010 ter sido o melhor de sempre a nível dos resultados líquidos, não nos acomodámos e estamos preparados para tempos desafiantes.

    - Os objetivos para este ano estão em causa?

    - Não. A degradação de 21% da nossa margem operacional nos primeiros três meses, devido aos custos da internacionalização, já estava prevista. A isto juntou-se a degradação do negócio em Portugal, sobretudo na componente de produtos (por exemplo, TV digital). Além de atingir os objetivos financeiros, queremos no final do ano estar mais bem preparados para a internacionalização. Vamos abrir novas frentes e reforçar as que já temos. Estamos a reforçar em Espanha (cujo mercado de TI é 10 vezes o português), onde temos 100 pessoas. A outra frente é Angola onde estamos há dois anos nos sectores de telecomunicações e banca. Em 2010 Angola já representou 10 milhões de dólares e este ano deve crescer 40%. A partir do escritório do Dubai temos ampliado a carteira de projetos em países do Médio Oriente e norte de África (Egito e Quénia). 
    - A empresa tem sido penalizada pela dependência do mercado doméstico?

    - Fomos penalizados por fazermos parte de uma geografia que está a ser olhada com muita desconfiança. Alguns fundos internacionais deixaram de ser nossos acionistas, não tanto pelos rácios da empresa, mas porque tinham instruções para não estarem em empresas em Portugal e em Espanha que tenham mais de 40% do negócio nestas geografias. No caso da Novabase agrava-se por ser um título com baixa liquidez.

RODAPÉ